O documentário Ônibus 174 traz um conflito de contrastes sociais.
Um assalto que, assim como muitos outros que ocorrem em ônibus, tinha tudo para acabar sem que fosse preciso derramar sangue. Porém, um bairro bom, de classe média alta do Rio de Janeiro, mereceu atenção maior por parte das câmeras e da mídia. Tudo estava sendo gravado e transmitido ao vivo, o que dificultou a negociação entre polícia e seqüestrador. A morte de inocentes poderia ter sido evitada.
Entretanto, muitos inocentes morrem pelas ruas e não são nem notados. O que o documentário quer mostrar é que aquele homem, o Mancha, como era conhecido pelos amigos, que seqüestrou o ônibus, tinha seus motivos para estar ali. O filme traz uma análise do universo em que viveu e cresceu Mancha, e que circunstâncias fizeram dele um delinqüente.
São muitos “Manchas” espalhados pelas ruas em busca de uma oportunidade. Vivem ignorados pela sociedade, passando despercebidos em meio às paisagens. Os cidadãos ignoram sua presença e as autoridades não tomam providências para modificar esta realidade.
Muitos foram “recolhidos” das ruas e contam através de depoimento no filme, que lá não tinham nada para fazer. A prisão em que viviam servia só para aumentar sua raiva e vontade de explodir com o mundo. Não foram educados lá dentro, nada é feito para que mudem seu comportamento e nada é ensinado de bom a eles. Apenas convivem com outros marginais, às vezes mais barra pesada e aprendem a aperfeiçoar suas técnicas de furto, arrumam contatos para drogas, enfim, pioram.
Assim como o caso “Isabela” que estamos presenciando atualmente na televisão, este só teve tamanha repercussão devido à classe social da família da menina. Muitas crianças são vítimas de abuso ou mortas pelos pais, isso é fato, comprovado por estatísticas. Assim como muitos ônibus são assaltados em plena luz do dia. O que tornou este caso tão especial foi o local onde ele ocorreu, o bairro do Jardim Botânico.
A população revoltou-se com Mancha, durante a transmissão ao vivo. O documentário Ônibus 174 veio para mostrar os dois lados da história. Não para defender Mancha ou culpar a polícia, mas para mostrar que o problema tem suas raízes mais embaixo. Cutucar os reais responsáveis pela miséria, falta de interesse, descaso com a população de baixa renda que faz com que muitos sigam o caminho de Mancha, gera aumento da violência, enfim.
Que providências foram tomadas? O número do ônibus mudou para 158, mas os problemas continuam.

Considero esse filme muito parecido com Notícias de uma guerra particular de João Salles (1999). Mais uma vez alguém tenta acordar o cidadão e cutucar os governantes para que tomem alguma atitude em relação a violência no Rio porém como sempre nada é feito. Não há interesse, dá menos lucro e por isso nada acontece.