A cerveja já não descia mais de um jeito prazeroso. Aquele homem pequeno com braços estranhos, corpo arcado, pernas desproporcionais e nenhum pêlo, levantava mais uma vez com sua esquisita pressa, afinal, não bebeu com rapidez, nenhuma das sete cervejas anteriores.
- Mas isso não é uma barriga, é um troféu! – falava Tristão com o interlocutor da outra mesa.
- Cala a boca nanico, vê se sai do SPC! – retrucava o senhor Michel, um gaúcho que dizia que pra casa só levava a marmita, mas desaforo, de jeito nenhum.
Tristão tinha alguns tiques como os revólveres imaginários que nunca saíam das mãos, atirava pra cima. O tempo todo era um tal de “Pshiu, pshiu” certo do abate! Tomava cerveja quente da grade, com a desculpa de estar com dor na garganta. A última cerveja provavelmente era para o santo, pois nunca tomava nenhum gole da derradeira.
Zé Tristão subiu em sua bicicleta, carregando dois sanduíches para viagem. Todas as noites cambaleava até o outro lado da rua, e quando conseguia equilibrar-se em linha reta, disparava na contra-mão dos carros.
Pão, maionese, alface, tomate, pepino, um apetitoso bife de hambúrguer, catchup, milho e um ingrediente especial que os donos do bar nunca revelariam. Dois desses estavam numa sacola em uma das mãos e Tristão que pedalava incessantemente, saindo da frente da universidade em direção aos fundos da cidade, onde fica o cemitério.
Morava ao lado do cemitério num apartamento pequeno com uma televisão, um rádio, uma cama e alguns armários. A morte parecia persegui-lo, pois trabalha no arquivo morto da universidade. O que diabos se faz em um arquivo morto? Lá onde se deposita o lixo burocrático da bosta universitária, talvez arquivasse papéis higiênicos usados, em pastas de capa dura… enfim! Sei dizer que aquele maldito ganhava mais que muitos professores universitários e tinha no mínimo duas formações acadêmicas. Se o demitissem daria prejuízo, tamanho o tempo de serviço!
Nas noites de lua bonita, deitava na grama de alguns túmulos vizinhos e ficava a mirar o céu com olhar perdido. Fã número 1 de Roberto Carlos e apaixonado por Vera Fischer, vivia perdido em suas paixões platônicas.
Eis que descendo seu tristonho olhar para as costas dos túmulos onde um pequeno morro se erguia, uma escada convidativa aguardava suas passadas de pernas curtas, bêbadas e fodidas. Subiu contando: 362 degraus. No outro lado do caminho tinha uma casa, árvores e um varal. Deitado sob os últimos degraus, mirava a casinha e viu muito bem quando uma mulher madura de seus quarenta e poucos saiu, olhou para os lados, acendeu um cigarro e enfeitou o ambiente do seu jeito.
Ali ficou, esperando até que ela entrasse, para então, pendurar sua sacolinha contendo os dois x-saladas, no varal em frente à casa. Foi-se embora, tilintando os dedos “Pshiu! Pshiu!”, tirinhos para o ar.
E assim o tempo foi passando, de dia dando tirinhos para cima, discutindo com o tal Michel, conversando com o taxista Emanuel, devendo para os donos do bar mais divertido do mundo. Mas à noite, era hora de conquistar.
- O x-salada do Valdir é o melhor que existe! Presente de amor melhor não há!
Todas as noites Tristão subia aqueles degraus e deixava sua sacolinha amarrada no varal. Os dois X-saladas pendurados todas as noites naquela droga de varal. Até que um dia, enfim, ele também ficou. A mulher o amou por uma ou duas vezes, talvez. Ou não.
- O brotinho me amarrou “Pshiu!” “Pshiu!”
- Como assim? Por um x-salada?
- Não. Foram dois. Né, Valdir?
- É! Conta outra.
- Me pendurou no varal! ‘Cê sabe nada Michel. Seu “Pshiu Pshiu!” Oh! Pshiu! Pshiu!
Mas esta é apenas uma história de bar que pescamos pelos cantos. Lugar que acontece de tudo! Descobre-se até, que fazendo três doações de sangue se consegue inscrição gratuita em concurso público.
O certo é que o mesmo briaco Tristão continua naquele bar da frente da universidade, dando tirinhos para cima, discutindo com o tal Michel, conversando com o taxista Emanuel, devendo para os donos do bar mais divertido do mundo; lugar que acontece de tudo, onde se descobre que fazendo três doações de sangue se consegue inscrição gratuita em concurso público.
Não sei falar de fim ou de começo, mas coisa engraçada tem lá. Tiozinhos que rendem histórias e cerveja gelada também. Só sei que este conto chegou ao fim. “Ô Valdir! Desce mais uma pra mim!”.
Conto feito para matéria de Língua Portuguesa III, terceiro período de Publicidade e Propaganda.
Agradecimento especial ao meu amor Didiê Kinsey que deu uma baita ajuda ;D
Muito bom! Bastante brasileiro!