O Tropicalismo foi um movimento de ruptura que sacudiu o ambiente da música popular brasileira entre 1967 e 1968. Liderado pelos cantores-compositores Gilberto Gil e Caetano Veloso, contou com a participação da cantora Gal Costa e do cantor-compositor (grande!) Tom Zé, da banda Os Mutantes e do maestro Rogério Duprat. A cantora Nara Leão e os letristas Capinan e Torquato Neto completaram o grupo, que teve ainda em Rogério Duarte um de seu mentores intelectuais.

Tudo começou com o álbum dos Beatles de 1967,”Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, disco que transformou em linguagem global o esplendor criativo da psicodelia dos anos 60, pois foi a primeira e única obra até então em que podemos ver uma liberdade musical, técnicas revolucionárias de gravação e uma abertura coerente em direção a novos horizontes musicais.
“Depois de Sgt. Peppers, a música popular tornou-se mais consciente, complexa, livre do esquema métrico padrão. É o primeiro álbum dos Beatles depois que deixaram de fazer shows. Estressados com o ritmo histérico da Beatlemania, John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr estavam cansados de ser os Beatles, daí a idéia de um álbum gravado por uma banda inventada, a Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.”
A capa do disco, uma obra prima da pop art. A foto de Michael Cooper mostra uma obra de Peter Blake. Nunca a capa de um álbum foi tão estudada e analisada. Acima de tudo, a imagem também teve um impacto significativo sobre o imaginário da juventude.
“Pop vem de popular que, em inglês, tem a mesma grafia e significado que em português. Veio para a música como para as artes plásticas, a pop art. É a arte do consumo. É a utiliza-ção, na criação artística, dos dados fornecidos pelos fatores de formação de um mercado de consumo. É arte do consumo. É a arte que procura concentrar na sua criação os elementos importantes na psicologia das massas, principalmente nos grandes centros urbanos onde o crescimento cada vez maior da classe média padroniza e simplifica os costumes, os valores culturais. A arte pop é a arte de seleção do que é mais direto, incisivo e importante para ser visto ou ouvido pelas pessoas.” Gilberto Gil
O disco também fixou as regras para as gravações em estúdio modernas. “Sgt. Pepper’s” inovou tanto no plano musical quanto no plano técnico. Para a gravação foi usada uma orquestra de 160 instrumentos, os primeiros experimentos com novos tipos de gravação, como o sistema Mellotron de gravações multifaixas, que usa paralelamente dois gravadores, com efeitos de redução de ruídos.
O álbum mistura muitos gêneros musicais. Cada música é uma influência diferente que pode ser percebida, vai desde músicas com instrumentos hindus, a participação da orquestra em outras, o violino em meio à guitarras elétricas, bem como instrumentos de percussão. Enfim, esse disco é “uma preciosidade de uma época extraordinária”.
Enquanto isso no Brasil, o Movimento Antropofágico tomava conta. Assim como este álbum dos Beatles, os Tropicalistas introduziram uma forma original de compor e interpretar. A Tropicália não pretendia sintetizar um estilo musical, mas sim instaurar uma nova atitude: sua intervenção na cena cultural do país foi, antes de tudo, crítica.
A intenção dos tropicalistas não era superar a Bossa Nova, da qual Veloso, Gil, Tom Zé e Gal foram discípulos assumidos. No início de 1967, esses artistas sentiam-se sufocados pelo elitismo e pelos preconceitos de cunho nacionalista que dominavam o ambiente da chamada MPB.
O Tropicalismo foi o movimento antropofágico que atingiu a música brasileira. O pessoal da Tropicália conseguiu juntar um pouco de cada estilo musical, bem como fizeram os Beatles, trazendo as guitarras elétricas para a Bossa e atingindo o público jovem bem como fazia a Jovem Guarda. Antropofagicamente “comendo” tudo que havia de bom, sugando toda essa musicalidade, criando assim um novo gênero musical e estilo de vida e comportamento.
Surge também nesta época as produções de Glauber Rocha, como Terra em Transe, e o cinema novo brasileiro.
Enfim, um movimento riquíssimo que surgiu dos jovens para os jovens da época, e que poucos jovens da nossa geração conhecem. E isso é muito triste se pararmos para pensar que esta é a nossa geração que será lembrada por o quê mesmo? Emos? Não, não. Melhor nem pensar nisso. Tristeza não! “Alegria, Alegria” como diria Caetano.

Este foi o primeiro álbum da Tropicália. Alguma semelhança com a capa do Sgt. Peppers? hehe